quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O Novo Básico, o que é isso?

Inicio essa seção com uma pergunta: Por que as aulas de história são consideradas chatas e livros, filmes, novelas, músicas históricas são um sucesso no Brasil e no Mundo? No campo do ensino de história, essa questão posta se desdobra em outra: Quem será o promotor do entendimentos das novas habilidades de letramento na contemporaneidade, momento em que tanto a forma como o modo como as coisas são feitas estão mudando radicalmente? Quem irá identificar o “novo básico? Cabe aos professores em geral tomar para si esse desafio. Afinal o que era reconhecido como habilidades básicas para um educando hoje não responde às demandas das mídias digitais e, nós professores, devemos entender os que é o “novo básico” (new basic). Por exemplo, no campo do letramento o que é considerado no velho básico é o reconhecimento de que os elementos fônicos são traduzidos em sons de fala nas imagens simbólicas do ler e escrever. O foco seria a aplicação correta de uma gramática. Os textos são desconectados dos contextos, tal questão já estava presente na proposta de multiletramento nas propostas pedagógicas de Paulo Freire. Contudo, a atualização é sempre necessária e o ajuste metodológico também. O que deve ser frizado é que a proposta do multiletramento não advoga a extinção do método fônico ou do uso da gramática, mas sim a descentralização desse método de letramento para outra metodologia onde o contexto é um elemento indispensável. O multiletramento quando reconhece um “novo básico” busca captar o sabor da contemporaneidade na abordagem do conhecimento. Assim sendo, o sentido a apreensão do contexto de um dado texto passa por entendimentos fonéticos, afetivos, visuais, táteis, auditivos, espaciais, virtuais … O “novo básico” está inscrito em outras questões como: “novo aprender” (new learn) e “novo ensinar”. Em outras palavras: implica conceber um novo docente. Aqui a proposta é compreender o multiletramento e o deslocar para a disciplina história. Quando o contexto é reclamado para a compreensão de um texto a relação multidisciplinar é colocado em destaque, pois a metodologia de multiletramento pressupõe um diálogo com toda a forma de conhecimento. Neste cenário a disciplina história traz a sua contribuição metodológica com a manipulação do conceito de tempo e espaço, sendo a temporalidade os instrumento tecnológico mais potente no campo da história. Ajustes nos métodos do ensino de história são possíveis por meio desse reflexão caminhando junto as propostas de Jacques Ranciere, sobretudo sua importante reflexão sobre o cinema memorialista. Pensar a história com as intervenções propostas por Jacques Rancière em “Figuras da História” complexifica nossa observação sobre o fazer e o interpretar a arte. Na obra referida Rancière pensa sobre a concepção da história em um sentido lato e elege as pinturas históricas e o cinema memorialista para uma análise onde os sentidos e os significados de uma dada obra tem tanta importancia analitica quanto os não-sentidos e os insignificados. Com isso, enriquece a perspectiva da produção artística e de como ela é um mediadora entre o ser e o não ser. Por exemplo, o cinema não registraria o acontecimento histórico e sim cria um acontecimento histórico a partir de uma determinada concepção de mundo. Walter Benjamin esclarece o aspecto técnico e mágico do cinema, em Rancière ocorre o aprofundamento da concepção da técnica e desmascara a mágia. A mágica da arte se localiza na sensação de absolutização de uma dada imagem de mundo (qualquer situação da vida ordinária), a técnica do cinema (controle da máquina e da luz) é manipulada por sujeitos históricos ativos de uma história comum (“História com potência ontológica”), que mesmo sem terem consciência manipulam a narrativa histórica, por isso a urgência em pensar a cerca do método na narrativa histórica. A produção da narrativa da história é composta por diversos discursos, temporalidades, espacialidades e intenções. Esse heterogeneidade, segundo Rancière, expressa o sentido da história. Cabe os homens individualmente interagir com essa narrativa. Em resumo, a História: “É também tecido novo no qual se apanham as percepções e as sensações de cada um. O tempo da história não é apenas o dos grandes destinos coletivo. É aquele em que qualquer um e qualquer coisa fazem história e são testemunho da História.” (RANCIÈRE, 2018). Everardo Paiva de Andrade e Nívea Andrade dialogam com a História Pública e propõe pensar sobre experiência como forma de aprofundar a entendimento do conhecimento do e sobre o campo do ensino de história. Eles citam a expressão de António Nóvoa “regresso dos professores” ao centro da ribalta educativa. Essa projeto busca pensar sobre esse novo papel do professor em um contexto de “novo básico”. Bibliografia ARNHEIM, Rudolf – Arte e Percepção Visual: Uma psicologia da visão criadora, trad. Ivonne. São Paulo: Pioneira (Editora da Universidade de São Paulo), 1996. Terezinha de Faria, São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1994. BENJAMIN, Walter – Obras Completas. (domínio público). BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes - Ensino de HIstória: Fundamentos e Técnicas. Editora Cortez, 2012. BLOCH, Marc - Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. BURCKHARDT, Jacob – O Estado como Obra de Arte, São Paulo, Pinguin & Companhia das Letras, 2012. 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GOGH, Vicent van – Vicent van Gogh: vida, obra e figuras da época. Van Gogh Museum, Amsterdam 2014. HAFFENDEM, Vikki – Cinema para crianças. São Paulo: Publifolhinha, 2012. KINDERSLEY, Dorling – Arte Para Crianças: Entre no incrível universo das mais belas pinturas e esculturas do mundo. São Paulo: Publifolhinha, 2012 KALANTIZS, Mary and COPE, Bill - Literacies. Nova Iorque: Cambridge, 2012. KOSELLECK, Reinhart - Futuros Passados: Contribuições à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto Ed. PUC-Rio, 2006. MAGALHÃES, Animação Espontânea – Dissertação defendida no Programa de Pòs-Graduação em Artes da PUC-Rio, 2004. MARQUEZ, Gabriel Garcia – Oficina de roteiro de Gabriel Garcia Marquez: como contar um conto.Rio de Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. MAUAD, Ana - História Pública no Brasil: sentidos e itinerários. Letra e Voz, 2016. MONTEIRO, Ana Maria, GASPARELO, Arlete Medeiros e MAGALHÃES, Marcelo de Souza - Ensino de História: sujeitos, saberes e práticas. 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2 comentários:

  1. “Por que as aulas de história são consideradas chatas e livros, filmes, novelas, músicas históricas são um sucesso no Brasil e no mundo?” A falta de interesse é um inimigo antigo na sala de aula e pensar suas origens requer um grande esforço. Inicialmente, julguei ser a resposta a busca da interseção entre as demandas dos alunos e toda a prática docente, e após a leitura do texto, concluí que cai numa armadilha.
    A primeira ruptura está na ideia de que ainda estamos num modelo engessado e “engessante” na educação básica, que pouco dialoga com seu meio, mesmo com a grande difusão dos estudos de Paulo Freire e de outros pesquisadores da educação. Os processos de aprendizagem não podem estar limitados à relação exclusivista e hierárquica professor- aluno, eles resultam de trocas entre alunos, professores, a comunidade escolar e o mundo. Mundo esse globalizado, intensamente interligado com amplas e tecnológicas redes de comunicação, que derrama em nós uma enxurrada de informações em diferentes formas. A educação fornece mecanismos para a leitura do mundo, e para ensinar a ler esse “novo mundo”, é necessário um “novo docente”, novas metodologias, uma “nova Educação Básica”. É admitir os diferentes tipos de inteligências, os mais diversos tipos de estímulos, meios de comunicação e demandas da contemporaneidade na prática docente.

    A História se insere nesse contexto por meio da sua contribuição analítica do tempo e espaço, bem como o seu comprometimento com o presente. O “ novo mundo” provoca um novo imaginário que indaga o passado com novas questões. Por que não trazer esse imaginário, suas ferramentas e linguagens para pensar o passado? É a proposta levantada pela professora Flávia Beatriz. As demandas dos alunos e a atividade docente não estão em universos distintos, compartilham os mesmos espaços e mantém uma relação interdependente entre si e o mundo. Entendendo História como ciência que estuda as ações humanas no tempo e no espaço, nós, professores de História, devemos refletir como essas ações e seus produtos no presente estão em nosso ofício, compreender e historicizar as metodologias.

    Romper com a predominância dos métodos considerados tradicionais constitui um imenso esforço em sair das áreas de conforto, é empreender no desconhecido, pois a formação docente ainda é pautada nos modelos tradicionais. E levantar debates como esse torna-se extremamente necessário.


    Referências Bibliográficas
    FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez Editora & Autores Associados, 1991.
    BLOCH, Marc - Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: editora Jorge Zahar, 2001.

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  2. Acredito que são propostas diferentes. O livro, o filme, a música são entretenimentos que visam a distração. A sala de aula visa o ensino. Atualmente, o que podemos perceber na nossa sociedade é o "orgulho" do não saber, a pessoa não sabe sobre o tema, mas não possui a capacidade de dizer que não tem opinião formada. Aprender, ler ou ouvir tornou-se algo chato, na linguagem dos alunos "entediante". Não culpo os professores uma vez que a realidade da escola é bastante diversa. Os modelos tradicionais ainda são predominantes, mas existe um receio de sair do tradicional por falta de estrutura, por falta de tecnologia. Na escola particular a realidade é diferente, no geral, existe um apoio ao método não tradicional, mas não vejo na escola pública o mesmo incentivo.

    O advento da pandemia obrigou os professores a fazerem um ajuste metodológico, o ensino remoto traz muitos desafios e possibilidades. E o novo básico precisará ser muito mais discutido com a realidade atualmente imposta.

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